Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Vermelho

A porta fechou com estrondo atrás dela. Deixou cair o sobretudo e tirou os saltos enquanto se encaminhava até o banheiro. Precisava lavar as mãos e o rosto, tentar amenizar as memórias e estímulos. Olhou no espelho e, como quase todas as noites, pode se reconhecer naquele instinto puro que ainda pulsava dentro dela.
Seus olhos, sob alguns aspectos, tinham tornado-se mais carmesim. Aos poucos o pulso diminuia, o verde voltava e ela já não sabia mais exatamente quem era. Era como se em todos os momentos estivesse dopada e apenas a estirpe rubra a tornasse sã, sã para matar e transar, em extases que a maioria das pessoas nunca chega a conhecer e então chamam de a mais pura loucura.
Tirou o vestido e a lingerie brancos, soltou o cabelo deslizou para debaixo d'água fria. Não tinha certeza de quanto tempo se passara quando rexolveu sair do banho, mas estava bem mais calma e agora podia pensar sobre o que faria e o que fizera. Pôs o roupão preto e, pegando um maço de cigarros e o celular no caminho, foi até a varanda de seu apartamento simples, porém airoso.
Foi então que percebeu que havia alguém em sua cama, alguém que ela não desejava ou sequer conhecia.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Solilóquios

Happiness is a warm gun mama
Ela ouvia enquanto deslizava naquele metal frio e desconfortavel. Sua peruca branca combinando com sua lingerie; o público não aplaudia, mas podia-se perceber que eles gostavam.
Engel Cortez avistou facilmente o homem tatuado que procurava naquela platéia. Terno, oculos escuros, uma mulher claramente bebada, mas ainda assim sexy, em seu colo, capangas incompetentes o vigiavam sem disfarçar, certamente era o mais indiscreto deles. Quem eram eles? Não fazia ideia, preferia assim.
Terminou sua performance coletando o dinheiro daqueles homens exaltados e sem a menor confiança. Voltou para o camarim, se é que poderia ser chamado assim, enquanto anunciavam a próxima dançarina. O lugar era grotesco, sujo, lotado, cheirava a suor, sexo e maquiagem. Cortez pegou seu sobretudo, tirou a peruca, colocou óculos escuros e fazendo questão de passar bem perto do tatuado e lançar-lhe um olhar convidativo, saiu pela porta lateral do estabelecimento.
Não precisou esperar muito fumando do lado de fora, como imaginara, ele veio até ela como uma presa facil que ele claramente era.
"Tem fogo?" ele não poderia ser mais clichê. A vontade que tinha era de dar uma resposta malcriada sobre como era obvia aquela pergunta uma vez que ela estava fumando e fazia tanto frio em Nürnberg naquela época do ano.
Sem responder Engel puxou o zippo da barra da meia 7/8 e abriu-o. O homem bem vestido tragou seu cigarro favorito pela ultima vez.